segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Reencontro


Como antigo amante, irado, que há muito se foi
Queima-me num instante e aos poucos me corrói
O que há de seguro em mim faz frívolo e só
E num sussurro impuro faz-me noite,cinza e pó

E do amargo gosto da saliva tua em beijo
Fica o osso exposto desse mórbido cortejo
A quem nada devo e de quem nada, nunca, anseio
Por quem nada atrevo além de dobre devaneio

Faz-me hoje dor o que outrora fez-me gozo
Dúbio,traidor,implacável,canceroso
Pois já,longe, foi-se o tempo em que ansiava ouvir-te atento
Hoje anelo contratempo que invalide o teu intento

Que se apague a torpe chama que então em mim ardia
Como fria fez-se a cama em que já ninguém dormia
Basta! Vai-te embora! Tem clemência deste errante!
E que longe de tua aurora, rumo à morte eu siga adiante.


Mylena Perez
16/02/2015

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Inspiração

Voz atroz, que em mim ferra, encerra
No seio anseio de perdido ardor
És pardo dardo — inconstante, errante
Absorto porto de infiel torpor

És louco solto, ingenuamente ardente
Comando brando e inspiração
Perverso verso que à guilhotina inclina
A minha alma calma...  Cante ilusão

Perigo antigo és, intenso incenso
Forçado afago que me faz sofrer
Certeiro arqueiro que à esperança lança
E em combate abate o que me faz viver

Veneno ameno que transborda a horda
É um doce fosse que me tira o ar
Cinzento alento teu eterno inferno
Onde me algemo e temo pelo meu amar

 Pois canto há tanto que é instinto e minto
Fadada a nada de real sentir
Imploro e choro por confuso abuso
Que em fachadas dadas não vou traduzir

Mylena Perez






quarta-feira, 25 de setembro de 2013

De Tempo e Dor


Sorrisos,risos.disso nada além
Lembranças são, pouco se mantém
Apenas vulto, turvo espasmo efêmero
Vestígio morto do que já vivi

E comigo o tempo,por todo caminho
Num lembrar constante do sofrer sozinho
Fez da alma velha,desprezada e só
E apegou-se a dor,fê-la ombro amigo

E num turbilhão de sentimentos mil
Fez do bem o mal,fez do bom o vil
Trazendo a dor a uma constante incômoda
Reduzindo-me a alma a nada mais que sombra

E se não mais há o que se faça agora
Que não sentir o badalar das horas
Que eu seja tudo e nada em mim se perca
Que o sinta o nada ,e o nada tudo seja

Mylena Perez
25/09/2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Plágio


Por estar cantando
O que há muito cantam
Me presumem sábio
E me julgam santo

Porém só repito
O que há muito li
O que resta n’alma
Do que já senti

E em meu peito encerro
O segredo a morte
Que não há um dia
Em que eu não tenha sorte

Já que nada sou além de letras soltas
Verso plagiado, copiado, tosco
Que o ouvido ouve, enojado e cospe
E eu vendo ao mundo como algo novo

Mylena Perez

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SORTE

"Sorte tenho
Que tempo me ainda resta
E reste tempo
Pois sorte me já não basta

 Fosse dia
A noite que agora se passa
 Restar-me-ia
Um tudo, um sempre, uma olhada

 Não tem nome
 É dor que me assola de graça
 Nada teme
 É dócil, é doce, é uma farsa

 Vem num vento
 E leva-me o corpo e a alma
 E resta o tempo
 À vida que se faz escassa”

 Por Mylena Perez
 Em 16/01/2013

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fardo

Fosse fácil esquecer-te, certamente o faria
E sem ti, viver- imagino eu−fácil seria
Pois nisso, o que há de prazer há de dor
Como parte do que é sofrer é também amor

E como tórrida chuva, que apenas cai em pensamento
Machuca-me teu amor em silêncio, por dentro
Pois ainda que ousasse então a externo trazê-lo
Inspirar-lhe-ia, em vão, eterno desapego

Pois a ninguém interessa o que faz em mim teu cheiro
E é fardo único e meu esse pranto já costumeiro
Se foi e é ainda vivo esse amor, seria negá-lo, presunção

E algo além dele sentir, loucura, quando não me há opção
Então de pranto vivo e do tempo que me sacia
Pois de amor, em ti nasci e de ti morro, do contrário, nada seria

Mylena Perez
25/01/2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cativo

Fosse-me fácil o mundo transpor em palavras,
Mais vezes o faria
Fosse-me simples o corrigir falhas,
Mais erros cometeria

Fosse-me tudo, a priori, o canto
Sem medo cantaria
Pois enche-me e me esvazia
Sou nele e dele pleno e dependente

Guia-me – hipócrita – e, torpe,
Em mim tudo governa
E, ao passo que me domina
Torna-me mais dele e menos de mim mesmo

Porém, se me fossem soltas as cadeias,
E, liberto fosse do seu condão vazio,
Se de livre arbítrio me fosse cheio o espírito,
Ainda assim voltaria a meu martírio

Por conta e risco de quem se entrega,
Eu− sujeito e senhor; imundo
Repousa, num desejo dobre e masoquista,
O ser escravo por vontade

Mylena Perez
22/11/2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Da Certeza

Mais certo seria se corresse o tempo como o sol que em minha pele ardia
Como singelo prelúdio, a introduzir o que viria
Mais fácil seria se ao correr do tempo eu me antecipasse
Mais cedo, quem sabe, o futuro chegasse mais tarde

E assim, no mais tardar, sensato, do meu ócio fizesse espera
E do meu plural, dobre, único fizesse, esfera
E dessa iminência torpe, efêmera e eterna
Fosse então, quem sabe, ainda o que me antes era

Sonhar... Será ao fim “sonhar” só o que de certo me resta?
Um compulsório fechar de olhos, incerto, sádico,
Que ao inspirar-me, molesta?

Será o Fosse, então, mais certo que o É, que o Foi ou que o Era,
E a minha certeza humana, a razão, da dúvida o império em terra?
E se fosse, poderia eu enfim ter de algo certeza?

Mylena Perez
10/05/2011

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dúvida

Cantar como há muito não canto
Não invalidaria, quiçá, meu pranto?
Não tiraria de meu verso o encanto?
Não faria de mim tolo, portanto?
Não faria imundo o que jurei ser santo,
Se, do rosto, eu transformasse o espanto
Em verso, em lira, em dobre desencanto?

Mylena Perez

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Resquícios

Quando, quem sabe, forem meus sorrisos pranto
E já, em meu tudo, nada houver de teus encantos
Quando o pó de tua sombra tiver meu coração varrido
E o som de tua voz não mais zumbir em meus ouvidos

Então, como se em vão nada houvesse sido
Talvez me façam, eu te amos, novamente sentido,
Outros olhos, quiçá, de novo me olhem de olhares
E volte eu, então, ao meu plural, aos meus milhares

De que, então, me valem, lógica e raciocínio,
Se sem ti viro bicho, não penso,
Se nada faço sem teu domínio?

Nascerá, pois, sem ti, meu dia,
Se nada sinto ou sou longe de teus lábios,
Se se apagou a chama que outrora em mim ardia?

Mylena Perez

Plenitude

Um lago fundo, nunca pensei que fosse
Imóvel, plácido, taciturno
Respirando a brisa que incerta me bate
De tédio, de glória, de tudo

Mas fosse ainda azar minha sorte
O veneraria; de tudo me enche
Queima-me os lábios, faz-me fraco, forte
Louco, sóbrio, num gozo fervente

E quando beire a morte
Ainda que fôlego me sobre
Faz-me cativo, faz sul meu norte

E pleno, então,
Por ti imundo e nobre
Sou servo eterno de teu condão

Mylena Perez

Poeira,
Só, leve, e apenas.
Poeira de existência.

Meu ser é falho,
Pó, ao vento,
De onde nunca saí.

Algemas de nuvem
À liberdade atando-me
Incertamente, sendo se.

Esforço sóbrio,
De querer e só
Satisfeita dor

Do pó ao pó.
E no meio nada
Imaginária a chaga

Que julguei sentir,
Sei que foi por falta fazer
Do que um ser que já foi, só resta fugir

Mylena Perez

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Nº 8

As encostas choravam meu nome
E as lágrimas do rio
Lambiam os lábios da terra
E assim, o eu de magma tocava o eu de nuvem
Soltando a fumaça
Que pintava arco-íris
Na íris do olho
Do universo

E mil pequenos duendes verdes riam
Riam e rolavam
Rolavam e apontavam
Para o, nu, seio da Terra
Que numa erupção de vergonha
Voou rasante de um sonho
Ainda coberto da serpentina
De algum passado carnaval

E quando o silêncio reinava
A terra me engolia e cuspia
Preso em verdes e vermelhos
E azuis e amarelos e em teus negros olhos verdes
Fez-se o início do fim
Uma nuvem, um sinal de fumaça
Que acenava em minha alma me chamando
“Venha só”
E a solidão que eu bem conheço
Fez-se bosque e noite e campo fresco
A lua, roxa, piscou em minha alma
E a noite foi passando ao som de incenso

Mylena Perez

Autopoema

Sou uma lagoa na planície
Onde o vento bate e balança o Cipestre
Sou um, negro, lago Ness de imundície
Onde o sol bate, na pele, e ferve

Sou o espírito do filósofo em crise
De quem do mundo alma se esquece
Sou o patinho feio que a cada frase vir cisne
Mas volta sempre a podridão a que pertence

Sou a árvore mais alta da floresta
Que tudo vê e por ninguém padece
Sou um riso de criança, inocente
Que mira à lua e faz sua prece

Sou o olhar doa amantes platônicos
Que se desejam e não se podem ter
Sou, claramente, o mais sábio dos homens
Mas no escuro, como Sócrates, só sei nada saber

Sou a brisa que derruba, das mulheres, os chapéus graciosos
Chuva que lava cenas- do- crime e almas de criminosos
Sou a lágrima quente que escorre no rosto frio
Que como gota de sangue, enobrece meu martírio

Sou um mar, salgado, de mágoas
De ilusão, profundo, afogando o viver
Sou um rio, perene, de águas
De onde corre poesia e onde se perde o meu ser

Mylena Perez

Acidental

O vento batia nas árvores
Mas minh’alma ouvia Chopin
Os pensamentos perdi numa esquina de paris
Já ressoava, metálico, o badalar das estrelas
Quando a lua piscou seus olhos azuis
Bem do fundo amarelo chegou, inesperado, o tão adorado spleen
Mas a noite virou dia, luz e fez cara de sol
Ressoou pela última vez o cheiro de incenso tingido de navy-blue
E antes que eu percebesse, meio incompleto, saiu mancando pela cidade um verso perneta

Mylena Perez

Lamentação

Em ondas revoltas de lágrimas
O mar escorre em meu rosto
Memórias, estreitas, não passam, mas
Nos olhos é o mundo já posto

Feito estrelas no negro firmamento
Lembranças hoje brilham dobres e nuas
É o imaginário concreto, um pensamento
Me faz outra vez tocarem as mãos tuas

É o pingo de água da chuva
É a gota da lágrima minha
É o olho que pisca na noite
É a lua que brilha sozinha

“Olho por olho” quero vê-la sofrer
Chorar! É agora “dente por dente”,
De satisfação a lágrima do meu rosto escorrer
Irromper a vingança de paixão latente

Se fosse efêmera a luz desse inverso...
Que me cega para não mais ver-te
Mas é eterno, eterno; Eterno
O martírio de ver-te e não ter-te

Um nome, um rosto, um beijo
Quem dera hoje esquecê-los eu?
É esse cárcere de saudade e desejo
Esverdeando o azul do meu céu

No espírito a noite gelada
E na boca a palavra não lida
É o remorso da maldição pregada
Na morte, “morte pela vida”

É a dor de uma foto rasgada
Numa noite de sono perdida
Mas tua alma, num canto, largada
Há de sentir a dor da ferida

É o sonho apagado, esquecido
Ou o murmúrio do vinho bebido?
É teu olhar de pura trapaça
Que vem a mente e não passa

É o vinho que resta na taça...
Mas doce? Ah, a loucura que herdei !
É aboca que beijo uma farsa?
Pois não sei se vivi ou sonhei

É o sentido perdido
Do fogo apagado a chama
Sabotado, fingido
Do qual só restou-me o drama

Fosse ainda mais leve a memória tua
A levaria, de espírito pesado
Mas que carregues tu o teu fardo
E apague, na saída, o interruptor da lua

Mylena Perez

Amada

Ó quão doces os lábios, os beijos
Da eterna Julieta minha
Tão singelos os toques
Ah! As cantigas que entoa sozinha

As ouvir ­ se as ouço entoar minha rainha
Faz me suspirar
E ao saudá-la, ah o rubor de sua face
Tão rósea, ao ouvir a voz minha

Cintila no olhar a faísca
Se encontra meu pensamento a linha sua
Floresce, dentro de mi, botão de paixão nua

Por ela canto estrelas
Louco Ícaro que a vida arrisca
Ah, tão doce, se ao menos pudesse vê-las

Mylena Perez

terça-feira, 28 de abril de 2009

Soneto a Vinicius de Morais

Queria poder, como você,
Cantar sem pudor as belezas do meu Rio
Queria fazer, como você,
Ruir as barreiras do verso mais frio

Queria amar, como você,
Muito, sempre e intensamente
Queria saber, como você,
Fazer rimar tudo naturalmente

Queria entender, como você,
Que a vida é um grande picadeiro
E que dela nada fica, tudo é passageiro

Queria cantar, como você,
A poesia que vem de dentro
Ouvir o coração, deixar que a arte fosse meu centro

Mylena Perez

Encontro

Noite fria
Caia a chuva fina
As lágrimas correm
O tic-tac tem pressa
Meu passado acena feliz
Recebendo inocente
O sorriso incerto do futuro
Como uma frágil criança
Entrando num quarto escuro
Tremendo de medo
Do invisível
Abre a pequena caixa
Do impensável
Memórias saltam
Numa confusão de sentimentos
De nomes e rostos
De gritos e risadas
Numa confusão de olhares
Eu, frágil criança
Sentada no chão
A caixa aberta
Observando aos prantos
A multidão que corre
Na sala vazia

Mylena Perez

Sky

Back, look back
A date, a face, a fact
Tears, no more
You do not own my tears anymore
Shine blue sky
Forever and ever shine
Hide blue sky
My scars and all I left behind
From what I thought I had
From whom I thought I was
Not later, I beg you, now
Hide suffering
Hide the sore

Mylena Perez